As formas precedentes e as inspirações – O Kinetoscópio e o Mutoscópio

No final do século XIX e começo do século XX, com a Revolução Industrial, o desenvolvimento da fotografia e a descoberta da eletricidade, as caixas ópticas evoluem a um dispositivo no qual o espectador vê uma sucessão de imagens iluminadas por uma pequena lâmpada. O norte-americano Thomas Edison, inspirado pelos brinquedos ópticos comuns entre as crianças da classe burguesa tais como o Fenaquistoscópio e o Zootrópio1, trabalha sobre uma maneira de registrar imagens em movimento. Associado com o franco-britânico William Dickson, eles aproveitam a chegada do filme de celuloide no mercado em 1888 para inventar em 1891 o Kinetógrafo (do grego “escrita do movimento”). Este aparelho é o ancestral de todas as câmeras de cinema que conhecemos hoje. Após diversas versões do funcionamento dos mecanismos do aparelho, a película perfurada de 35 mm se desenrola verticalmente graça à rotação de um tambor dentado e seus fotogramas são no formato “paisagem”. Mais tarde, este formato será definido como o padrão dos filmes de cinema que conhecemos e utilizamos ainda hoje. As séries de fotos eram captadas em sequência e fixadas em filmes de celuloide. A duração dos primeiros filmes varia de 30 a 60 segundos. Segundo Laurent Mannoni, “entre 1891 e 1895, Edison realiza em torno de setenta filmes”2.

A invenção do Kinetógrafo mudou o mundo e estimulou a pesquisa dos industriais da época sobre as fotografias em movimento. Mais tarde, em 1895, esta corrida vai culminar no Cinematógrafo dos irmãos Lumière. Sobre o Kinetógrafo, os jornalistas da época Albert Robida e Octave Uzanne declararam em 1894:

Vocês ignoram talvez a grande descoberta de amanhã, a que logo nos surpreenderá. Eu quero falar do kinetógrafo de Thomas Edison cujos primeiros testes eu pude ver em Orange-Park em uma recente visita feita ao grande eletricista próximo de Nova-Jersey. O kinetógrafo registrará o movimento e reproduz sua voz. Daqui cinco ou seis anos, vocês apreciarão esta maravilha baseada sobre a composição dos gestos pela fotografia instantânea ; o kinetógrafo será então o ilustrador da vida cotidiana.3

Após rodar o filme, é preciso exibi-lo. O Kinetoscópio (do grego, “observar o movimento”) é a invenção de Edison e Dickson que permite a observação dos pequenos filmes realizados com o Kinetógrafo. Trata-se de uma caixa de madeira que contém em seu interior um mecanismo que faz rolar o filme de 35 mm diante de uma lâmpada elétrica (também inventada por Edison). Diante da luz, um obturador rodando a alta velocidade é instalado para dar a ilusão do movimento. Assim, a luz poderosa ilumina sucessivamente cada fotograma do filme de maneira sincronizada. Graça a um visor com uma lente de aumento, um olho mágico, tem-se a impressão de realidade observando cenas de aproximadamente um minuto. Tudo é impulsionado por um motor elétrico.

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Thomas Edison (direita) e o Kinetógrafo com George Eastman (esquerda), fundador da Eastman Kodak Company que ajudou a desenvolver o filme flexível em 35 mm. Foto : domínio público

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O Kinetoscópio. Foto: National Museum of Science & Media / Science & Society Picture Library.

Em 1893, Thomas Edison funda em Nova Iorque e outras cidades dos Estados Unidos, os Kinetoscope Parlors. Estes eram lugares onde podia-se encontrar diversos exemplares do Kinetoscópio, cada um carregado de um filme diferente. O nome comercial da máquina foi designado como o Kinetoscope Peep Show Machine. Como destacou Briselance e Morin, “certos exemplares apresentam bobinas reservadas aos homens somente, onde pode-se apreciar damas que tiram seu vestido e ousam se apresentar, suprema audácia, em meia-calça e maiô! Todas as outras bobinas são de filmes visíveis por um público familial”4.

Mais tarde, Edison e Dickson vão tentar juntar o som e a imagem com o Kinetofone ou Kineto-Fonógrafo. Este aparelho era a tentativa de associar o filme do Kinetoscópio e o registro sonoro num cilindro de cera gravado do Fonógrafo (também inventado por Thomas Edison). Alguns filmes e cilindros são produzidos mas em 1914 um incêndio destruirá todos os filmes e registros sonoros no complexo de Edison em West Orange.

O Mutógrafo e o Mutoscópio serão inventados em 1895 como uma resposta comercial ao Kinetoscópio. Financiado e fabricado pela American Mutoscope Company do grupo K.M.C.D. (Elias Bernard Koopman, Harry Norton Marvin, Herman Casler et William Dickson), o Mutógrafo era uma câmera com um mecanismo diferente do Kinetógrafo que utilizava uma película de 70 mm de largura, o que fornecia uma maior definição à imagem em relação à película de 35 mm, para captar séries de fotos em sequência. Após a filmagem, os fotogramas eram reproduzidos em papel fotográfico cartonado e fixados em sequência em torno de um eixo central. Assim como descreve Charles Musser:

Esta dimensão permite em seguida de tirá-los em papel fotográfico forte com uma boa qualidade e de agrupá-los na ordem cronológica na forma de rolo, como um enorme Rolodex. Uma bobina é composta de cerca de 850 fotografias que dão uma visualização de duração aproximada de um minuto.5

O Mutoscópio é munido de um sistema acionado por uma manivela que folheia o conjunto de fotogramas iluminados por uma lâmpada. Assim como no Kinetoscópio, o espectador vê o filme através de um olho mágico. A produção deste aparelho era muito mais barata que a produção do Kinetoscópio, o que permitiu ao Mutoscópio fazer uma forte concorrência no mercado e se disseminar rapidamente nas cidades.

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O Mutoscópio (fechado e aberto). Foto: disponível em http://www.darrahglass.com/779 consultado em 07/05/2017

Enquanto caça-níquel e espetáculo escondido, logo os nus femininos e as imagens eróticas se espalharam entre os Kinetoscópios e os Mutoscópios que foram censurados por diversas vezes. Hoje, os peep shows são sinônimo de atração erótica. Nos anos 1970, os peep shows viraram apresentações baratas de trechos de filmes pornográficos ou curtos espetáculos ao vivo de strip-tease e danças eróticas mais geralmente com mulheres atrás de uma vitrine para somente um espectador por vez. Com a chegada da internet, esta prática está em plena decadência e os espetáculos eróticos são transmitidos ao vivo em sites online.

(Texto integrante da dissertação Teatro Lambe-Lambe – Sua história e poesia do pequeno de Pedro Cobra orientado por Prof. Véronique Perruchon na Université de Lille)

Notas e referências bibliográficas:

1O Fenaquistoscópio (1832) e o Zootrópio (1834) eram dispositivos ópticos que ofereciam curtíssimos espetáculos de imagens animadas de alguns segundos de duração. A ilusão do movimento se produzia devido à rotação de um disco ou tambor com gravuras decompondo um movimento cíclico.

 

2Laurent Mannoni, « Lexique », In: Libération número especial, p. 3, suplemento do nº 4306 de 22 de março de 1995. (Tradução livre)

 

3Albert Robida e Octave Uzanne, « La Fin des livres », In : Contes pour les bibliophiles, Londres, Globusz Publishing, 1894. (Tradução livre)

 

4 Marie-France Briselance et Jean-Claude Morin, Grammaire du cinéma, página 26, Paris, Nouveau Monde, 2010. (Tradução livre)

 

5Charles Musser, History of the American Cinema, Volume 1, The Emergence of Cinema, The American Screen to 1907, Berkeley, Los Angeles e Londres, University of California Press, 1990, p. 146-147. (Tradução livre)

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VERSION FRANÇAISE

Le Kinetoscope et le Mutoscope

À la fin du XIXe et début du XXe siècles, avec la Révolution Industrielle, le développement de la photographie et la découverte d’électricité, les boîtes d’optique évoluent à un dispositif dans lequel le spectateur voit une succession d’images éclairées par une petite ampoule. L’américain Thomas Edison, inspiré par les jouets optiques communs parmi les enfants de la classe bourgeoise tels que le Phénakistiscope et le Zootrope1, travaille sur une façon d’enregistrer l’image en mouvement. Associé avec le franco-britannique William Dickson, ils profitent de l’arrivée du ruban de celluloïd sur le marché en 1888 pour inventer en 1891 le Kinétographe (du grec « écriture du mouvement »). Cet appareil a été l’ancêtre des toutes les caméras de cinéma qu’on connaît aujourd’hui. Après plusieurs versions du fonctionnement des mécanismes de l’appareil, la pellicule de 35mm aux perforations se déroule verticalement grâce à la rotation d’un tambour denté et ses photogrammes sont au format « paysage ». Plus tard, cet format a été accordé comme le standard des films de cinéma qu’on connaît et utilise encore aujourd’hui. Les séries de photos étaient captées en séquence et fixées en ruban de celluloïd. La durée des premiers films varie de 30 à 60 secondes. Selon Laurent Mannoni, « entre 1891 et 1895, Edison réalise quelque soixante-dix films »2.

L’invention du Kinétographe a bouleversé le monde et a stimulé la recherche des industriels de l’époque par les photographies en mouvement. Plus tard, cette course va culminer en 1895 dans le Cinématographe des frères Lumière. Sur le Kinétographe, les journalistes de l’époque Albert Robida et Octave Uzanne ont déclaré en 1894 :

Vous ignorez peut-être la grande découverte de demain, celle qui bientôt nous stupéfiera. Je veux parler du kinétographe de Thomas Édison, dont j’ai pu voir les premiers essais à Orange-Park dans une récente visite faite au grand électricien près de New-Jersey. Le kinétographe enregistrera le mouvement de l’homme et le reproduira exactement comme le phonographe enregistre et reproduit sa voix. D’ici cinq ou six ans, vous apprécierez cette merveille basée sur la composition des gestes par la photographie instantanée ; le kinétographe sera donc l’illustrateur de la vie quotidienne.3

Après tourner le film, il faut le montrer. Le Kinétoscope (du grec, « observer le mouvement ») était l’invention d’Edison et Dickson qui permettait l’observation des petits films réalisés avec le Kinétographe. Il s’agissait d’une boîte en bois qui contenait à l’intérieur un mécanisme qui faisait rouler le film de 35mm devant une ampoule électrique (aussi inventée par Edison). Devant la lumière, un obturateur tournant à très grande vitesse était installé pour donner l’illusion du mouvement. Ainsi, la lumière puissante illuminait successivement chaque photogramme du film de façon synchronisée. Grâce à un viseur avec une lentille grossissante, un œilleton, on avait l’impression de réalité en observant des scènes d’environ un minute. Tout était entraîné par un moteur électrique.

En 1893, Thomas Edison fonde à New York et d’autres villes des États-Unis, les Kinetoscope Parlors. Ceux-ci étaient des endroits où on pouvait trouver plusieurs exemplaires du Kinétoscope, chacun chargé d’un film différent. Le nom commercial de la machine a été désigné comme le Kinetoscope Peep Show Machine. Comme l’a soulignée Briselance et Morin, « certains exemplaires présentent des bobineaux réservés aux messieurs seuls, où l’on peut apprécier des dames qui enlèvent leur robe et osent se présenter, suprême audace, en collant et maillot! Tous les autres bobineaux sont des films visibles par un public familial »4.

Plus tard, Edison et Dickson vont intenter de marier le son et l’image dans le Kinétophone ou Kinéto-Phonographe. Cet appareil était la tentative d’associer le film du Kinétoscope et l’enregistrement sonore dans un cylindre de cire gravé du Phonographe (aussi inventé par Thomas Edison). Quelques films et cylindres sont produits mais en 1914 un incendie détruira tous les films et enregistrements sonores dans le complexe Edison de West Orange.

Le Mutographe et le Mutoscope seront inventés en 1895 comme une réponse commercial au Kinétoscope. Financé et fabriqué par l’American Mutoscope Company du groupe K.M.C.D. (Elias Bernard Koopman, Harry Norton Marvin, Herman Casler et William Dickson), le Mutographe était une caméra avec un mécanisme différent du Kinétographe qui utilisait une pellicule de 70mm de large, ce qui fournit une plus grande définition à l’image par rapport à la pellicule de 35mm, pour capter des séries de photos en séquence. Après le tournage, les photogrammes étaient reproduits en papier photographique cartonné et fixés en séquence autour d’un axe central. Ainsi que le décrit Charles Musser,

Cette dimension permet ensuite de les tirer sur papier photographique fort avec une bonne qualité et de les rassembler dans l’ordre chronologique sous forme de manchon, comme un énorme Rolodex. Une bobine est composée d’environ 850 photographies qui donnent en visionnement une durée approximative d’une minute.5

Le Mutoscope est muni d’un système actionné par une manivelle qui effeuille l’ensemble de photogrammes éclairés par une lampe. Ainsi que le Kinétoscope, le spectateur voit le film à travers un œilleton. La production de cet appareil était beaucoup moins chère que la production du Kinétoscope, ce qui a permis le Mutoscope de faire une forte concurrence au marché et de se disséminer très vite dans les villes.

En tant que machine à sous et spectacle caché, bientôt les nus féminins et les images érotiques se sont répandu parmi les Kinétoscopes et les Mutoscopes qui sont censurés plusieurs fois. Aujourd’hui les peep shows sont synonymes d’attraction érotique. Dans les années 1970, les peep shows sont devenus des présentations pas chères des extraits des films pornographiques ou des courts spectacles de strip-tease et danses érotiques avec des vraies femmes derrière une vitrine par seulement un spectateur à la fois. Avec l’arrivée de l’internet, cette pratique est en pleine décadence et les spectacles érotiques sont transmis en direct sur des sites en ligne.

(Texte intégrant du mémoire Théâtre Lambe-Lambe – Son histoire et sa poésie du petit de Pedro Cobra dirigé par Mme. Véronique Perruchon à l’Université de Lille)

Notes et références bibliographiques:

1Le Phénakistiscope (1832) et le Zootrope (1834) étaient des jouets optiques qui offraient des très courts spectacles d’images animées d’environ quelques secondes. L’illusion du mouvement se produisait lors de la rotation d’un disque ou tambour avec des gravures décomposant un mouvement cyclique.

 

2Laurent Mannoni, « Lexique », In: Libération numéro spécial, p. 3, supplément au nº 4306 du 22 mars 1995.

 

3Albert Robida et Octave Uzanne, « La Fin des livres », In : Contes pour les bibliophiles, Londres, Globusz Publishing, 1894.

 

4 Marie-France Briselance et Jean-Claude Morin, Grammaire du cinéma, page 26, Paris, Nouveau Monde, 2010.

 

5Charles Musser, History of the American Cinema, Volume 1, The Emergence of Cinema, The American Screen to 1907, Berkeley, Los Angeles et Londres, University of California Press, 1990, p. 146-147. (Traduction libre)

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