Era a caixa de Pandora um Lambe-Lambe?

Há muito tempo, Pandora, guiada por sua curiosidade, abriu a caixa e caiu na armadilha dos deuses liberando todos os males do mundo. Desde então, os deuses se divertem em ver a crueldade e todos os desamores que infligem a vida humana. A sociedade capitalista contemporânea distanciou os homens e as mulheres de si mesmos e, consequentemente, do outro. A cultura massificada não responde à singularidade de cada indivíduo o impondo modelos de vida que contribuem à pasteurização de suas necessidades e, então, de sua personalidade.

O Teatro Lambe-Lambe é o representante contemporâneo da caixa de Pandora, mas ao invés de esconder os males da vida, ele esconde seu antídoto. Revisitando várias formas espetaculares precedentes, Denise Di Santos e Ismine Lima inventaram a réplica da armadilha dos deuses do capital. Elas criaram um sabotador de seu sistema.

Filho dos quilombos, o Teatro Lambe-Lambe é uma possibilidade de liberdade pelo viés da autogestão. Enquanto fábrica do sensível, esta linguagem permite “antes de tudo compreender a constituição de um mundo sensível comum, de um habitat comum, pelo entrançamento de uma pluralidade de atividades humanas” (Rancière, 2000). O encontro por meio da miniatura estimula a subjetividade dos espectadores. O apelo à intimidade e ao imaginário do público estimula sua emancipação das regras cotidianas e o convida a criar novas realidade possíveis. Assim, o Teatro Lambe-Lambe permite às pessoas de se tornarem seus próprios deuses.

Finalmente, cada apresentação do Teatro Lambe-Lambe é uma pequena revolução escondida, uma resposta de resistência disfarçada de segredo. Aqui a curiosidade de Pandora é bem-vinda! Desta forma, o Teatro Lambe-Lambe inspira e contagia as pessoas pela democratização da arte. Isto justifica o sucesso de sua disseminação no Brasil e sua expansão internacional. O trabalho solitário dos artistas de caixa se difunde na coletividade da natureza humana. Durante a prática revolucionária desta linguagem, a generosidade é a arma principal dos lambe-lambeiros e lambe-lambeiras nos campos de batalha urbanos. Eles e elas compreendem que a humanidade só existe no encontro.

(Texto integrante da dissertação Teatro Lambe-Lambe – Sua história e poesia do pequeno de Pedro Cobra orientado por Prof. Véronique Perruchon na Université de Lille)

Referência bibliográfica:

RANCIÈRE, Jacques, Le partage du sensible, Paris, La Fabrique éditions, 2000.

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VERSION FRANÇAISE

Est-ce que la boîte de Pandore était un Lambe-Lambe?

Il y a longtemps, Pandore, guidée par sa curiosité, a ouvert la boîte et est tombée dans le piège des dieux en libérant tous les malheurs du monde. Depuis ce moment-là, les dieux s’amusent de voir la cruauté et tous les désamours qui infligent la vie humaine. La société capitaliste contemporaine a éloigné les hommes et les femmes d’eux-mêmes et, par conséquence, de l’autre. La culture massifiée ne répond pas à la singularité de chaque individu en lui imposant des modèles de vie qui contribuent à la pasteurisation des ses besoins et donc de sa personnalité.

Le Théâtre Lambe-Lambe est le représentant contemporain de la boîte de Pandore, mais au lieu de cacher les malheurs de la vie, il cache son antidote. En revisitant les plusieurs formes spectaculaires précédentes, Denise Di Santos et Ismine Lima ont inventé la réplique du piège des dieux du capital. Elles ont crée un saboteur de leur système.

Fils des quilombos*, le Théâtre Lambe-Lambe est une possibilité de liberté par le biais d’autogestion. En tant que fabrique du sensible, ce langage permet « d’abord entendre la constitution d’un monde sensible commun, d’un habitat commun, par le tressage d’une pluralité d’activités humaines » (Rancière, 2000). La rencontre par la miniature stimule la subjectivité des spectateurs. Lappel à l’intimité et à l’imaginaire du public stimule son émancipation des règles quotidiennes et l’invite à créer des nouvelles réalités possibles. Ainsi, le Théâtre Lambe-Lambe permet aux gens de devenir leurs propres dieux.

Finalement, chaque présentation du Théâtre Lambe-Lambe est une petite révolution cachée, une réponse de résistance déguisée en secret. La curiosité de Pandore y est bienvenue! De ce fait, le Théâtre Lambe-Lambe inspire et contagionne les gens par la démocratisation de l’art. Cela justifie le succès de sa dissémination au Brésil et son expansion internationale. Le travail solitaire des artistes de boîte se répand dans la collectivité de la nature humaine. Lors de la pratique révolutionnaire de ce langage, la générosité est l’arme principale des lambe-lambeiros et des lambe-lambeiras dans les champs de bataille urbains. Ils comprennent que l’humanité n’existe qu’aux moments des rencontres.

* Les quilombos sont des communautés autonomes fondées entre le XVIe et le XIXe siècle par des esclaves fugitifs au Brésil. Ils se constituent comme des endroits de refuge et de la défense contre l’esclavage où on préserve la vision africaine du monde et les liens familiaux perdus avec l’esclavage.

(Texte intégrant du mémoire Théâtre Lambe-Lambe – Son histoire et sa poésie du petit de Pedro Cobra dirigé par Mme. Véronique Perruchon à l’Université de Lille)

Référence bibliographique:

RANCIÈRE, Jacques, Le partage du sensible, Paris, La Fabrique éditions, 2000.

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