O dispositivo e as miniaturas

O espaço teatral sempre foi um lugar com o qual pode-se jogar. As vanguardas artísticas modernas e a contemporaneidade transformaram o teatro em um verdadeiro laboratório de experiências estéticas. Deste modo, a caixa Lambe-Lambe é uma versão miniaturizada e itinerante deste laboratório. O objeto caixa, interminável “fonte de ficções”1, confere também a este laboratório uma atmosfera de mistério e de excitação. Desde a Antiguidade, a humanidade utiliza caixas para guardar, esconder, salvar e estocar uma infinidade de coisas. Quaisquer que sejam seu material e seu propósito, o objeto caixa sempre esteve presente, das situações cotidianas aos momentos sagrados e míticos das diversas culturas humanas. Segundo Gorgati:

Simples, o objeto caixa tem sido invólucro de muitos outros conteúdos como livros, sapatos, cristais, coroas, flores, cartas, temperos, fantasmas, condes, lobos, cidades e planetas. Apesar da simplicidade, e de ser tão comum, de papelão, madeira, pedra, plástico ou aço, esse objeto se situa no centro do segredo, como sólido que promete seu lado de dentro, permeável através de alguma fissura que se obtém pela astúcia, paciência, aproximação, por algum questionamento, uma janela ou por uma chave própria.2

Nos últimos séculos, a sociedade capitalista industrial criou a fetichização generalizada da embalagem. O ato de esconder alguma coisa dentro de uma caixa, de um saco ou de um pacote gera uma expectativa nos consumidores e consumidoras que atribuem mais interesse à coisa escondida. Assim, a coisa escondida adquire mais importância e, então, mais valor graça à curiosidade suscitada por uma embalagem atrativa. É o princípio do tesouro, como afirma Gaston Bachelard, “na caixa estão as coisas inesquecíveis, inesquecíveis para nós, mas inesquecíveis para aqueles aos quais nós daremos nossos tesouros. O passado, o presente, um futuro estão lá condensados. E assim, a caixa é a memória do imemorial”3.

O caráter polissêmico do objeto caixa, este recipiente de segredos, se configura no Teatro Lambe-Lambe como um espaço cênico, uma superfície de mediação e também um campo de experiências. Feitas geralmente de madeira ou papelão, as caixas Lambe-Lambe tem aberturas para a manipulação dos elementos que estão em seu interior. Estas aberturas são instaladas segundo as exigências do tipo de manipulação trabalhada pelo ou pela artista. Situada à frente da caixa, há uma outra abertura que serve como visor para a espectadora ou espectador. Do outro lado, há também um visor para o ou a artista. Estes visores podem estar acompanhados de um tecido que serve como cobertura para reduzir a interferência da luz externa. O conjunto da caixa Lambe-Lambe é apoiado sobre um tripé ou uma mesa com assentos dobráveis.

A iluminação do espetáculo Lambe-Lambe pode variar entre a luz natural ou artificial. No caso onde se usa iluminação natural, a caixa Lambe-Lambe tem algumas aberturas superiores pelas quais a luz do sol pode penetrar. Estas aberturas podem ter filtros ou gelatinas para colorir a luz. No caso de iluminação artificial, as caixas são equipadas com um sistema de lâmpadas de LED a bateria com todas as possibilidades de cores ou ainda com lanternas que permitem a manipulação da luz em cena.

No que concerne a sonorização do espetáculo, as caixas Lambe-Lambe são geralmente equipadas com dois fones, um para o ou a artista e outro para o público, conectados a um leitor mp3. As trilhas sonoras podem variar entre canções da cultura de massa, textos gravados, ruídos e músicas originais.

Comumente, a caixa Lambe-Lambe serve a um só espetáculo pois cada caixa é construída segundo as exigências estéticas e técnicas do que estará em seu interior. O exterior da caixa é frequentemente decorado também segundo a temática de seu espetáculo. Deste modo, não se vê duas caixas idênticas, mesmo quando se trata de uma associação ou uma série de caixas de uma mesma companhia, cada uma tem sua particularidade. Pode-se dizer então que a singularidade é um dos aspectos mais importantes das caixas Lambe-Lambe.

caixas

Diferentes caixas Lambe-Lambe. Fotos: Felipe Zacchi e 4º FESTILAMBE

O formato da caixa Lambe-Lambe suscita questões sobre seu interior, o que concerne os elementos animados, e sobre o exterior, o que compreende o diálogo da caixa com o ambiente onde ela está inserida. O aspecto plástico deste diálogo está fundado nas relações entre diferentes escalas. De uma maneira ou de outra, o público descobre dentro da caixa uma representação em miniatura do mundo que ele conhece e onde ele habita todos os dias. É esta tensão plástica entre o pequeno e o grande, entre um mundo em miniatura dentro do mundo em tamanho real que provoca o maravilhamento no espectador e na espectadora. São as novas regras próprias deste mundo miniaturizado que farão a espectadora e o espectador sonharem seus novos mundos possíveis. Como demonstrou Bachelard, “assim, o minúsculo, porta estreita por excelência, abre um mundo. O detalhe de uma coisa pode ser o signo de um novo mundo, e um mundo que como todos os mundos, contém os atributos da grandeza. A miniatura é uma das moradas da grandeza.”4.

Logo, nesta correlação entre o macrocosmo e o microcosmo entorno da caixa Lambe-Lambe, os elementos animados carregam uma função essencial dentro deste laboratório portátil: eles emocionam as pessoas com sua carga afetiva. Suas imagens e o jogo de manipulação convidam o público a revisitar suas referências, suas lembranças e seus conflitos pessoais. Como Christian Carrignon propõe ver, “o objeto, do tamanho de uma mão, tem esta função de abrir o imaginário de maneira a concentrar o olhar e a escuta, uma respiração entre o mundo e o íntimo”5. O trabalho de manipulação com os elementos miniaturizados exige uma atenção especial a seu dinamismo cênico, isto é, faz-se necessário trabalhar a lentidão, as ações justas e precisas, os detalhes, deve-se limpar o movimento do objeto suprimindo os ruídos das ações supérfluas. Quanto mais o objeto ou o boneco é pequeno, maior é a exigência de sua animação. Como destacou Bachelard, “na contemplação da miniatura, é preciso uma atenção ressaltada para integrar o detalhe”6. As miniaturas dentro da caixa condensam os valores do mundo exterior, assim, pode-se dizer que a delicadeza do Teatro Lambe-Lambe está nos detalhes. Quanto mais o ou a artista é engajado com os detalhes de construção e de manipulação, mais o espetáculo é vivo.

O Teatro Lambe-Lambe, graça à incomparável proximidade com o público, é uma máquina teatral que só funciona com a intensa triangulação entre a ou o artista, os elementos animados e cada espectadora ou espectador. Deste modo, deve-se considerar o público como um elemento a mais no processo criativo, o que confere um outro vínculo com o espectador ou com a espectadora. Portanto, no momento de criação e durante as apresentações, deve-se pensar no lugar do público na espacialidade da caixa. O ponto de vista do público determina o trabalho da manipulação e das ações do espetáculo. Além disso, é importante que o ou a artista possa ver os olhos de seu público, com este contato o lambe-lambeiro e a lambe-lambeira podem sentir o que se passa com ele e podem dosar as emoções na manipulação, personalizando a experiência do espetáculo. Ismine Lima e Denise Di Santos afirmam frequentemente que este contato visual reforça o trabalho do e da artista do Teatro Lambe-Lambe.

(Texto integrante da dissertação Teatro Lambe-Lambe – Sua história e poesia do pequeno de Pedro Cobra orientado por Prof. Véronique Perruchon na Université de Lille)

Notas e referências bibliográficas:

1Roberto Gorgati, « O Teatro Lambe-Lambe e as narrativas da distância », Móin-Móin – Revista de Estudos sobre Teatro de Formas Animadas, 2011, nº 08, Jaraguá do Sul, p. 211

2Idem.

3Gaston Bachelard, La poétique de l’espace, Paris, Les Presses universitaires de France, 1961 [1957], p.111. (Tradução livre)

4Ibid, p.182.

5Christian Carrignon e Jean-Luc Mattéoli, Le théâtre d’objet – A la recherche du théâtre d’objet. Paris, THEMAA, 2009, p.39. (Tradução livre)

6Gaston Bachelard, op. cit., p. 186.

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VERSION FRANÇAISE

 LE DISPOSITIF ET LES MINIATURES

L’espace théâtral a été toujours un lieu avec lequel on peut jouer. Les avant-gardes modernes et la contemporanéité ont transformé le théâtre en un vrai laboratoire d’expériences esthétiques. De ce fait, la boîte Lambe-Lambe est une version miniaturisé et itinérante de ce laboratoire. L’objet boîte, interminable source de fictions, confère aussi à ce laboratoire une atmosphère de mystère et d’excitation. Depuis l’Antiquité, l’humanité utilise des boîtes pour garder, cacher, sauver et stoker une infinitude de choses. Quoique ce soit son matériel et son propos, l’objet boîte a été toujours présent, des situations quotidiennes aux moments sacrés et mythiques des diverses cultures humaines. Selon Gorgati :

Simple, l’objet boîte a été l’enveloppe de plusieurs contenus, tels comme des livres, des chaussures, des cristaux, des couronnes, des fleurs, des cartes, des épices, des fantômes, des comtes, des loups, des villes et des planètes. En dépit de sa simplicité et d’être si commun, fait en carton, en bois, en pierre, en plastique ou en acier, cet objet est au centre du secret, en tant que solide qui promet son intérieur, perméable par le moyen de quelque fissure qu’on obtient par l’astuce, la patience, l’approche, par quelque questionnement, une fenêtre ou par sa propre clé.1

Dans les derniers siècles, la société capitalisteindustrielle a créé la fétichisation généralisée de l’emballage. L’acte de cacher quelque chose à l’intérieur d’une boîte, d’un sac ou d’un paquet génère une attente chez le consommateur qui attribue plus d’intérêt à la chose cachée. Ainsi, la chose cachée acquiert plus d’importance et, donc, plus de valeur grâce à la curiosité suscitée par une attractive emballage. C’est le principe du trésor, comme Gaston Bachelard le rend sensible, « dans le coffret sont les choses inoubliables, inoubliables pour nous, mais inoubliables pour ceux auxquels nous donnerons nos trésors. Le passé, le présent, un avenir sont là condensés. Et ainsi, le coffret est la mémoire de l’immémorial »2.

Le caractère polysémique de l’objet boîte, ce récipient de secrets, se configure chez le Théâtre Lambe-Lambe comme un espace scénique, une surface de médiation et aussi un champ d’expériences. Faites généralement en bois ou carton, les boîtes Lambe-Lambe ont des ouvertures pour la manipulation des éléments qui sont à son intérieur. Ces ouvertures sont installées selon les exigences du type de manipulation travaillé par l’artiste. Située à l’avant de la boîte, il y a une autre ouverture qui sert comme viseur pour la spectatrice ou le spectateur. Dans l’autre côté, il y a aussi un viseur pour l’artiste. Ces viseurs peuvent être accompagnés d’un tissu qui sert comme une couverture pour réduire l’interférence de la lumière externe. L’ensemble de la boîte Lambe-Lambe est appuyé sur un trépied ou une table avec des sièges pliables.

L’éclairage du spectacle Lambe-Lambe peut varier entre la lumière naturelle ou artificielle. Dans le cas où on fait usage d’un éclairage naturel, la boîte Lambe-Lambe a quelques ouvertures supérieures par lesquelles la lumière du soleil peut pénétrer. Ces ouvertures peuvent avoir des filtres ou gélatines pour avoir des couleurs. Dans le cas de l’éclairage artificiel, les boîtes sont équipées avec un système de LED à batterie avec toutes les possibilités de couleurs ou encore avec des lampes torche qui permettent la manipulation de la lumière sur scène.

En ce qui concerne la sonorisation du spectacle, les boîtes Lambe-Lambe sont équipées plus généralement avec deux casques, un pour l’artiste et l’autre pour le public, connectés à un lecteur mp3. Les bandes sonores peuvent varier entre des chansons de la culture de masse, des textes enregistrés, des bruits et des musiques originaux.

Couramment, la boîte Lambe-Lambe sert à un seul spectacle parce que chaque boîte est construite selon les exigences esthétiques et techniques de ce qui sera à son intérieur. L’extérieur de la boîte est souvent décoré selon la thématique de son spectacle aussi. De ce fait, on ne voit pas deux boîtes identiques, même quand il a une association ou une série de boîtes d’une même compagnie, chacune a sa particularité. On peut dire donc que la singularité est un des aspects les plus importants des boîtes Lambe-Lambe.

Le format de la boîte Lambe-Lambe pose des questions sur son intérieur, ce qui concerne les éléments animés, et sur son extérieur, ce qui comprend le dialogue de la boîte avec l’environnement dans lequel elle est insérée. Le côté plastique de ce dialogue est fondé dans les relations entre différentes échelles. De quelque façon, le public découvre à l’intérieur de la boîte une représentation en miniature du monde qu’il connaît et où il habite tous les jours. Cette tension plastique entre le petit et le grand, entre un monde en miniature à l’intérieur du monde à taille réelle provoque l’émerveillement chez le spectateur. Ce sont les nouvelles règles propres de ce monde miniaturisé qui feront la spectatrice rêver son nouveau monde possible. Comme l’a montré Bachelard, « ainsi, le minuscule, porte étroite s’il en est, ouvre un monde. Le détail d’une chose peut être le signe d’un monde nouveau, d’un monde qui comme tous les mondes, contient les attributs de la grandeur. La miniature est une des gîtes de la grandeur »3.

Alors, dans cette corrélation entre le macrocosme et le microcosme autour de la boîte Lambe-Lambe, les éléments animés portent une fonction essentielle à l’intérieur de ce laboratoire portable : ils émotionnent les gens avec leur charge affective. Leurs images et le jeu de manipulation invitent le public à revisiter ses références, ses souvenirs et ses conflits personnels. Comme Christian Carrignon propose de voir, « L’objet, de la taille d’une main, a cette fonction d’ouvrir l’imaginaire tout en concentrant le regard et l’écoute, une respiration entre le monde et l’intime »4. Le travail de manipulation avec des éléments miniaturisés exige une attention spéciale à leur dynamisme scénique, c’est-à-dire, il est nécessaire de travailler la lenteur, les actions justes, les détails, on doit épurer le mouvement d’objet en supprimant les bruits des actions superflues. Plus l’objet ou la marionnette est petite, plus grande est l’exigence de son animation. Comme l’a souligné Bachelard, « dans la contemplation de la miniature, il faut une attention rebondissante pour intégrer le détail »5. Les miniatures à l’intérieur de la boîte condensent les valeurs du monde à l’extérieur, ainsi, on peut dire que la délicatesse du Théâtre Lambe-Lambe est aux détails. Plus l’artiste est engagé avec les détails de construction et de manipulation, plus le spectacle est vivant.

Le Théâtre Lambe-Lambe, grâce à l’incomparable proximité avec le public, est une machine théâtrale qui ne fonctionne qu’avec l’intense triangulation entre l’artiste, les éléments animés et chaque spectatrice ou spectateur. De ce fait, on doit considérer le public comme un élément de plus dans le processus créatif, ce qui confère un autre lien avec le spectateur ou la spectatrice. Ainsi, au moment de création et lors des présentations, on doit penser à la place du public dans la spatialité de la boîte. Le point de vue du public détermine le travail de la manipulation et les actions du spectacle. Par ailleurs, il est important que l’artiste puisse voir les yeux de son public, avec ce contact le lambe-lambeiro ou lambe-lambeira peut sentir ce qui se passe avec lui et il ou elle peut doser les émotions dans la manipulation en personnalisant l’expérience du spectacle. Ismine Lima et Denise Di Santos affirment souvent que ce contact visuel renforce le travail de l’artiste du Théâtre Lambe-Lambe.

(Texte intégrant du mémoire Théâtre Lambe-Lambe – Son histoire et sa poésie du petit de Pedro Cobra dirigé par Mme. Véronique Perruchon à l’Université de Lille)

Notes et références bibliographiques:

1Roberto Gorgati, « O Teatro Lambe-Lambe e as narrativas da distância », Móin-Móin – Revista de Estudos sobre Teatro de Formas Animadas, 2011, nº 08, Jaraguá do Sul, p. 211 (Traduction libre)

2Gaston Bachelard, La poétique de l’espace, Paris, Les Presses universitaires de France, 1961 [1957], p.111.

3Ibid, p.182.

4Christian Carrignon et Jean-Luc Mattéoli, Le théâtre d’objet – A la recherche du théâtre d’objet. Paris, THEMAA, 2009, p.39.

5Gaston Bachelard, op. cit., p. 186.

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