O lambe-lambeiro e a lambe-lambeira são os mestres de seu teatro

As dimensões reduzidas e os aspectos poéticos do Teatro Lambe-Lambe exigem do artista uma grande eficácia técnica e plástica. Geralmente, estas necessidades levam a artista a um trabalho de criação mais solitário. Evidentemente, há lambe-lambeiros e lambe-lambeiras que procuram a colaboração de outros profissionais para ajudar na construção do espetáculo e de suas estruturas. De qualquer forma, o e a artista invariavelmente participam da totalidade do processo criativo de sua obra. As lambe-lambeiras e os lambe-lambeiros se tornam então os responsáveis por todos os aspectos técnicos e artísticos de seu espetáculo, da construção da caixa, com seus sistemas sonoros e de iluminação, à escritura da dramaturgia e a confecção dos elementos animados e cenários. Este domínio do processo criativo ligado à singularidade dos dispositivos que faz de cada caixa uma sala de espetáculo exclusiva a uma só encenação, conferem aos lambe-lambeiros e às lambe-lambeiras o status de diretores e diretoras de seus próprios teatros. Segundo Amara Hurtado, Jirlene Pascoal e Mariana Baeta, integrantes da companhia brasileira As Caixeiras Cia. de Bonecas,“tínhamos o teatro nas mãos! Éramos donas de nossas próprias casas de espetáculos e dominávamos todos os processos: dramaturgia, direção de atores, encenação, iluminação, cenário, trilha sonora. Era mágico e belo1.

Pode-se dizer então que o Teatro Lambe-Lambe é uma forma teatral baseada sobre a autogestão. A portabilidade de sua estrutura traz uma grande independência ao e à artista que podem viajar facilmente com seu espetáculo e se instalar em qualquer lugar nas cidades. Esta itinerância obriga as lambe-lambeiras e os lambe-lambeiros a se tornarem as empreendedoras e os empreendedores do próprio trabalho. O e a artista constroem seu teatro, criam seu espetáculo, produzem e difundem sua arte nas ruas, nas feiras e nos festivais, ela e ele apresentam seu espetáculo e se ocupam do dinheiro ganhado. A brevidade do espetáculo e seu formato prático e funcional permitem aos e às artistas fazerem diversas apresentações em pouco tempo e, consequentemente, ganhar dinheiro para financiar suas próximas viagens.

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Lambe-lambeiros Thiago Barba e Suzi Daiane com figurinos e suas caixas Lambe-Lambe. Foto: Cia. Avenida Lamparina

A curiosidade que a caixa suscita no público é uma importante aliada da propaganda do trabalho dos lambe-lambeiros e das lambe-lambeiras. O mistério em volta da figura do e da artista do Teatro Lambe-Lambe funciona como um chamado para atrair as pessoas. As lambe-lambeiras e os lambe-lambeiros reforçam frequentemente este mistério utilizando figurinos que combinam com a caixa e com o tema de seu espetáculo. Uma outra estratégia é o uso de placas e cartazes com o título do espetáculo e palavras que convidam o público. Existem ainda alguns artistas que anunciam em voz alta seu trabalho como os apresentadores de circo. O e a artista assumem assim seu lugar de médium entre o espetáculo e o espectador ou espectadora, uma espécie de mago e maga das miniaturas.

A rua é uma fonte interminável de estímulo e de informação, o e a artista do Teatro Lambe-Lambe devem ser abertos à espontaneidade do cotidiano e devem aprender a jogar esteticamente com ela. Como mostra Bachelard, “possuo melhor o mundo na medida em que eu seja hábil em miniaturizá-lo”2. A observação do mundo e de sua gente confere ao trabalho dos lambe-lambeiros e das lambe-lambeiras mais complexidade. É necessário saber invadir os espaços públicos e encantar as pessoas por meio de sua paixão artística. Infiltrar-se nas cidades com a ternura da miniatura não é uma tarefa fácil de cumprir, sobretudo quando as cidades são bombardeadas com a massificação da cultura. Segundo Ismine Lima, “o lambe-lambeiro tem que ser guerreiro porque ele tem que cavar os seus espaços. Ele é a pessoa do futuro, porque hoje o futuro vai ser de quem abre um caminho, abre um espaço e diz: esse trabalho é meu! Invente o seu trabalho!”3

Dominar o Teatro Lambe-Lambe é um trabalho em constante desenvolvimento, o que põe o e a artista em permanente aprendizagem. É sempre necessário estudar, aprofundar seus conhecimentos para transformar em miniatura sua compreensão do mundo e então a oferecer afetuosamente a alguém. Como sublinhou Denise Di Santos:

Você (o lambe-lambeiro e a lambe-lambeira) conquistou, você é empreendedor, você é o seu instrutor mas você também precisa aprender. Como a gente vai estudando e vai trazendo mais carga, mais elemento e vai ressignificando. Porque ressignificar faz parte do crescer. E é preciso crescer sempre. É preciso evoluir porque senão a gente fica no ostracismo.4

Além disso, as lambe-lambeiras e os lambe-lambeiros são também trabalhadoras e trabalhadores das ruas, da cultura urbana. Enquanto Ismine Lima e Denise Di Santos trabalham com suas caixas durante os festivais e oficinas que elas participam, elas utilizam sempre um avental como símbolo de sua condição de trabalhadora. Segundo suas próprias palavras, “nós não somos mais do que trabalhadores iguais ao cozinheiro. Nós alimentamos as pessoas também. Todas as artes alimentam e nós resolvemos trabalhar com avental”5. Assim como todos os artistas de todas as outras áreas, as lambe-lambeiras e os lambe-lambeiros não tem uma função utilitária na sociedade contemporânea mas um papel de mediadores de ideias, de possibilidades e de sonhos. Cada artista do Teatro Lambe-Lambe é um médium para comunicar através de um espetáculo escondido em miniatura o que nos torna humanos.

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Thiago Barba, Denise Di Santos, Pedro Cobra e Ismine Lima com o avental do Teatro Lambe-Lambe. Foto: Felipe Zacchi.

(Texto integrante da dissertação Teatro Lambe-Lambe – Sua história e poesia do pequeno de Pedro Cobra orientado por Prof. Véronique Perruchon na Université de Lille)

Notas e referências bibliográficas:

1Amara Hurtado, Jirlene Pascoal e Mariana Baeta, « As Caixeiras Cia. de Bonecas : percursos da miniatura », Revista Anima, 2013, nº 01, São Paulo, p. 14.

2Gaston Bachelard, op. cit., p.177. (Tradução livre)

3Ismine Lima. (2017). Conferência no 4º FESTILAMBE em Valparaíso/Chile [Arquivo de áudio] Gravação pessoal.

4Denise Di Santos. (2017). Conferência no 4º FESTILAMBE em Valparaíso/Chile [Arquivo de áudio] Gravação pessoal.

5Ismine Lima. (2017). Conferência no 4º FESTILAMBE em Valparaíso/Chile [Arquivo de áudio] Gravação pessoal.

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VERSION FRANÇAISE

LE LAMBE-LAMBEIRO ET LA LAMBE-LAMBEIRA SONT LES MAÎTRES DE SON THÉÂTRE

Les dimensions réduites et les aspects poétiques du Théâtre Lambe-Lambe exigent de l’artiste une grande efficacité technique et plastique. Généralement, ces nécessités amènent l’artiste à un travail plutôt solitaire de création. Évidemment, il y a des lambe-lambeiros et des lambe-lambeiras qui cherchent les services d’autres professionnels pour les aider dans la construction du spectacle et des ses structures. De toute façon, l’artiste invariablement participe de la totalité du processus créatif de son œuvre. Les lambe-lambeiras et les lambe-lambeiros deviennent donc les responsables pour tous les aspects techniques et artistiques de son spectacle, de la construction de la boîte, avec ses systèmes sonores et d’éclairage, à l’écriture de la dramaturgie et la confection des marionnettes et des décors. Cette domination du processus créatif liée à la singularité des dispositifs qui fait de chaque boîte une salle de spectacle exclusive à une seule mise-en-scène, confèrent aux lambe-lambeiros le statut de directeurs de leurs propres théâtres. Selon Hurtado, Pascoal et Baeta, intégrantes de la compagnie brésilienne As Caixeiras Cia. de Bonecas, « Nous avions le théâtre dans les mains ! Nous étions les maîtresses de nos propres salles de spectacles et nous dominions tous les processus : la dramaturgie, la direction d’acteurs, la mise-en-scène, l’éclairage, le décor, la bande sonore. Il était magique et beau »1.

On peut dire donc que le Théâtre Lambe-Lambe est une forme théâtrale basée sur l’autogestion. La portabilité de sa structure apporte une grande indépendance pour l’artiste qui peut voyager facilement avec son spectacle et s’installer n’importe où dans les villes. Cette itinérance oblige les lambe-lambeiros et les lambe-lambeiras à devenir les entrepreneurs de leur propre travail. L’artiste construit son théâtre, elle crée son spectacle, elle fait la production et la diffusion de son art dans les rues, les foires et les festivals, elle le présente et elle s’occupe de l’argent. La brièveté du spectacle et son format pratique et fonctionnel permettent à l’artiste de faire plusieurs présentations en peu de temps et, conséquemment, de gagner de l’argent pour financier ses voyages.

La curiosité que la boîte suscite chez le public est une importante alliée de la propagande du travail des lambe-lambeiros et des lambe-lambeiras. Le mystère autour de la figure de l’artiste du Théâtre Lambe-Lambe fonctionne comme un appel pour attirer les gens. Les lambe-lambeiros et les lambe-lambeiras renforcent souvent ce mystère en utilisant des costumes qui combinent avec la boîte et avec le thème de son spectacle. Une autre stratégie est l’utilisation des panneaux ou des affiches avec le titre du spectacle et des mots qui invitent le public. Il y a même quelques artistes qui annoncent leur travail comme les présentateurs de cirque. L’artiste assume ainsi sa place de médium entre le spectacle et le spectateur, une sorte de magicien des miniatures.

La rue est une source interminable de stimulus et d’information, l’artiste du Théâtre Lambe-Lambe doit être ouvert-e à la spontanéité du quotidien et il doit apprendre à jouer esthétiquement avec elle. Ainsi que le montre Bachelard, « je possède d’autant mieux le monde que je suis plus habile à le miniaturiser »2. L’observation du monde et de ses gens confère au travail des lambe-lambeiros et des lambe-lambeiras plus de complexité. Il faut savoir envahir les espaces publics et enchanter les personnes par le biais de sa passion artistique. S’infiltrer dans les villes avec la tendresse de la miniature n’est pas une tâche facile d’accomplir, surtout quand les villes sont bombardées avec la massification de la culture. Selon Ismine Lima, « le lambe-lambeiro doit être guerrier parce qu’il doit trouver ses propres espaces. Il est la personne de l’avenir, parce que le futur sera de ceux qui ouvrent une voie, un espace et qui disent : voici mon travail ! Inventez votre travail ! »3

Maîtriser le Théâtre Lambe-Lambe est un travail en constant développement, ce qui met l’artiste en permanente apprentissage. Il faut toujours étudier, approfondir ses connaissances pour transformer en miniature sa compréhension du monde et puis l’offrir affectueusement à quelqu’un. Comme l’a soulignée Denise Di Santos :

Vous (les lambe-lambeiros) avez conquis, vous êtes entrepreneur, vous êtes son propre instructeur mais vous avez besoin d’apprendre aussi. Lors qu’on étude, on apporte plus de charge, plus d’éléments et on resignifie les choses. Parce que resignifier fait partie du grandir et il faut grandir toujours. Il faut évoluer parce que sinon on est ostracisé.4

De plus, les lambe-lambeiras et les lambe-lambeiros sont aussi des ouvrières et des ouvriers des rues, de la culture urbaine. Alors que Ismine Lima travaille avec sa boîte et pendant les festivals et les ateliers qu’elle participe, elle utilise souvent un tablier comme un symbole de sa condition d’ouvrière. Selon ses propres mots, « nous (les lambe-lambeiros) ne sommes que des ouvriers comme le cuisinier. Nous nourrissons les gens aussi. Tous les arts nourrissent et nous avons décidé de travailler avec le tablier »5. Ainsi que tous les artistes de tous les domaines, les lambe-lambeiras et les lambe-lambeiros n’ont pas une fonction utilitaire dans la société contemporaine, mais un rôle de médiateurs d’idées, de possibilités et des rêves. L’artiste du Théâtre Lambe-Lambe est un médium pour faire communiquer par le biais d’un spectacle caché en miniature ce qui nous rend humaines.

(Texte intégrant du mémoire Théâtre Lambe-Lambe – Son histoire et sa poésie du petit de Pedro Cobra dirigé par Mme. Véronique Perruchon à l’Université de Lille)

Notes et références bibliographiques:

1Amara Hurtado, Jirlene Pascoal et Mariana Baeta, « As Caixeiras Cia. de Bonecas : percursos da miniatura », Revista Anima, 2013, nº 01, São Paulo, p. 14. (Traduction libre)

2Gaston Bachelard, op. cit., p.177.

3Ismine Lima. (2017). Conférence au 4º FESTILAMBE à Valparaíso/Chili [Fichier audio] Enregistrement personnel. (Traduction libre)

4Denise Di Santos. (2017). Conférence au 4º FESTILAMBE à Valparaíso/Chili [Fichier audio] Enregistrement personnel. (Traduction libre)

5Ismine Lima. (2017). Conférence au 4º FESTILAMBE à Valparaíso/Chili [Fichier audio] Enregistrement personnel. (Traduction libre)

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